Os  Canais  de  Comunicação

Todo ser vivo possui “canais de comunicação”, ou seja, meios de receber informações do meio onde se encontra, e também de transmitir. Para receber informações, existem os cinco sentidos: a visão, a audição, o olfato, o tato e o paladar. Para enviar, cada espécie tem o seu próprio “jeitinho” – que pode incluir o uso de sons, expressões corporais, odores, etc.

Para os cachorros, a principal forma de receber informações é através da visão, seguido pela audição. Sendo animais sociais, boa parte da comunicação entre cães é baseada no uso da linguagem corporal e de sons. O olfato apurado vem em terceiro lugar, sendo uma ferramenta importante para a caça, para a identificação de indivíduos (cada cão identifica seus companheiros pelo cheiro), e para a demarcação de territórios.

O sentido do olfato, entretanto, acaba sendo pouco usado pela maioria dos cães de companhia, já que ele deixa de ser essencial à sobrevivência. Eles ainda demarcam territórios e cheiram os bumbuns dos seus companheiros caninos, mas não precisam caçar, e nem realmente se preocupar se estão invadindo territórios alheios. O paladar e o tato apenas fornecem informações sobre coisas que já estão muito próximas, sendo necessário lamber, comer ou tocá-las.

A Perda  dos  Sentidos  e  As  Falhas  na  Comunicação

Os cães podem perder um ou mais sentidos por diversos motivos. A visão pode ser perdida por conta de uma catarata, um glaucoma, de infecções oculares, lesões neurológicas, e até mesmo pela perda acidental de um ou dos dois olhos. Já a audição tende a ser perdida devido à idade avançada, infecções, e acidentes que envolvam sons altos, por exemplo.

Muitos cães chegam à terceira idade com algum grau de cegueira, ou de surdez. A perda da visão ou da audição leva a inevitáveis problemas de comunicação para os cães, já que eles deixam de receber informações importantes do mundo à sua volta.

Um cão cego não tem como compreender a linguagem corporal dos seus companheiros caninos e humanos, já que não tem como vê-los. Ele pode ignorar sinais de aviso importantes, e acabar sendo atacado por outros cães. Por outro lado, ele próprio pode passar a ter reações agressivas diante de aproximações inesperadas, já que tem dificuldade para identificar quando alguém se aproxima dele, e quem é. O mundo pode se tornar assustador, conforme o cão se bate e tropeça em objetos, cai em buracos, e é constantemente surpreendido por pessoas ou animais que se aproximam sem avisar.

Já o cão surdo tem a vantagem de conseguir ver e entender os recados “não verbais” transmitidos pelos seus companheiros humanos e caninos, embora a comunicação com humanos seja prejudicada. Isso porque os humanos usam muito mais a fala do que a linguagem corporal para se comunicarem, então o cão não conseguirá compreender os comandos verbais e chamados dos seus tutores. Ele também pode se assustar com mais facilidade, pois não consegue ouvir quando alguém se aproxima: as pessoas e animais parecem simplesmente “brotar” na frente dele.

Sendo cego ou surdo, o cão acaba eventualmente se adaptando à sua nova condição, assim como os seus tutores. Já falamos, em artigos anteriores, sobre os desafios e as soluções possíveis para tutores que convivem com cães que sejam deficientes visuais ou auditivos. Mas, e se o cachorro for cego e surdo?

O  Cão  Cego  e  Surdo

Quando um cão é cego e surdo, os desafios à comunicação se tornam muito maiores. O cão não consegue mais interpretar a linguagem corporal dos seus companheiros, e tampouco ouvir chamados ou comandos verbais dos seus tutores. Se um cão cego ou surdo tende a se tornar inseguro, então um cão que seja cego esurdo será ficará muito mais. Você pode usar sons para avisar um cão cego que está se aproximando, e pode evitar surpreender um cão surdo, tomando o cuidado de não surgir por trás dele. Mas se o cão não vê e não escuta, então avisá-lo com antecedência fica bem mais difícil.

Você não deve tocar diretamente num cão surdo e cego, pois pode surpreendê-lo e até mesmo desencadear uma reação agressiva. Não é que o cão tenha se tornado agressivo, na verdade ele está apenas assustado. O mundo agora é um lugar muito misterioso para ele.

Facilitando  a  Orientação  e  o  Reconhecimento

O que você pode fazer, então, é facilitar a comunicação através do uso de odores. O seu cão pode até estar com “pouca prática” em farejar no início, mas, na falta dos outros sentidos, este deverá se sobressair e se tornar muito útil. Procure identificar as pessoas da casa com odores específicos – ou seja, cada um deve ter o “seu” perfume. O cão aprenderá então a identificar os cheiros, e até conseguirá senti-los a uma certa distância, e assim saberá quando algum dos seus humanos estiver próximo. Não se preocupe em “perfumar” os outros cachorros da casa – eles já têm os seus próprios odores característicos, e os cães são plenamente capazes de identificá-los. Na realidade, evite perfumar os seus cães quando eles tomarem banho, para não confundir o seu cãozinho cego e surdo.

Antes de tocar no seu cão, permita que ele cheire a sua mão ou o seu pulso, de modo que ele possa identificá-lo. Só então toque nele com delicadeza, tomando o cuidado de fazer com que todo contato físico seja o mais positivo possível. Assim como os cães que são apenas cegos, os cães cegos e surdos precisarão aprender a “mapear” a casa onde vivem. Eles fazem isso naturalmente, por tentativa e erro – mas você pode dar uma mãozinha, usando trilhas de odores pela casa, ou deixando cada ambiente com um cheiro característico. Tapetes com diferentes texturas e tamanhos também ajudam na orientação através do tato.

Para criar as trilhas de odores, ou para deixar cada ambiente com um cheiro característico, você pode usar essências. Como os cães têm olfatos bem sensíveis, os odores não precisam ficar “fortes”; mas, caso os cheiros incomodem as pessoas, há ainda uma outra opção. Você pode comprar adesivos com odores para cães, desenvolvidos especificamente para esta finalidade. Eles têm a vantagem de não serem perceptíveis para as pessoas.

Na hora das refeições, procure aquecer a comida do seu cão, para que ela exale um cheiro mais forte e atrativo para ele. Isso vai estimular o apetite dele, e também vai facilitar a localização do pratinho. Não se esqueça de chamá-lo quando for servir o alimento, usando o próprio pote com comida para atrai-lo. Os potes de água e comida devem ser mantidos sempre no mesmo lugar, e este deve ser facilmente acessível ao cão em todos os momentos. O uso de tapetes emborrachados no lugar da água e da comida do cão, além de facilitar a higiene, também ajuda o animal a saber exatamente onde os seus potes estão – e evita que ele tropece neles. Mais uma vez, o tato pode ser usado para facilitar a vida do seu peludo.

Tome o cuidado de manter o “banheiro” do seu cão num local facilmente acessível para ele, sem grandes obstáculos ou longos caminhos a serem percorridos (lembrando que cães não gostam de fazer as necessidades no lugar onde dormem). Se houver um degrau no caminho, verifique a possibilidade de cobri-lo com uma tábua, por exemplo, para criar uma rampa. Se isto não for possível, use “dicas táteis” para o seu cão saber quando se aproxima do degrau: aquelas fitas antiderrapantes, colocadas antes de cada degrau, podem ajudar o cão a saber que ele precisará subir ou descer. No início, pratique subir e descer o degrau com ele na coleira, para que ele entenda a dica.

Cuidados  Com  A  Segurança  Do  Cão

Quando se tem um cão surdo e cego, é importante tomar alguns cuidados com a segurança dele. Uma das principais ameaças são as escadas. Observe que, no parágrafo anterior, mencionamos a possível presença de “um degrau”, como frequentemente existe em casas que têm quintais e jardins. Mas deixar “um degrau” acessível ao seu cão cego é bem diferente de uma escadaria inteira. Se a residência tiver mais de um piso, use portões de segurança para evitar que o cão suba ou desça as escadas sem supervisão, ou pior – caia escada abaixo, se estiver caminhando distraído no andar de cima.

É normal que, no início, o cão se bata em paredes ou móveis, até que ele consiga finalmente criar um “mapa mental” da casa. Mas, para que ele consiga criar este mapa mental, é preciso que as coisas esteja sempre no mesmo lugar. Evite mudar os móveis de lugar, para que o cão não se bata neles, e também para que ele não fique desorientado. Objetos espalhados pelo chão, como sapatos e brinquedos, também devem ser evitados na medida do possível, já que o animal pode tropeçar neles e se machucar. Em casas com crianças, isto pode ser um desafio, mas procure ensinar os pequenos a manter os brinquedos que não estejam usando dentro de um cesto ou baú, para não machucar o cachorrinho.

Por fim, alguns equipamentos de segurança podem ser usados, tais como capacetes ou guias protetoras, como o Muffin’s Halo, que ainda não está disponível no Brasil. Estes acessórios servem para evitar que o cão bata a cabeça e acabe se machucando enquanto caminha.

Na hora dos passeios, use sempre uma coleira ou peitoral com guia, e mantenha o cão perto de si. Fique atento para ajudá-lo a desviar de obstáculos que possam aparecer, e procure repetir sempre o mesmo trajeto. Ao ficar familiarizado com os ambientes por onde passeia, ele ficará mais seguro e conseguirá se divertir muito caminhando e sentindo cheiros diferentes.

Por fim, tome cuidado na hora de alimentar o seu cão cego e surdo. Lembre-se de que ele está apenas sentindo o cheiro da comida, e não consegue saber se ela está na sua mão, por exemplo. Evite, portanto, alimentá-lo nas suas mãos, já que você pode levar uma mordida acidental. Idealmente, coloque sempre as comidas – e mesmo petiscos – do seu cão no pote dele, e, se for o caso, erga o pote para que ele possa cheirar e pegar.

Fonte: www.meucaovelhinho.com.br

Com muito amor e carinho, o seu cãozinho surdo e cego também pode ser feliz!